A MISSÃO DAS RSCM
NUM TEMPO DE GLOBALIZAÇÃO
Conferência do Peter Henriot,
S.J.
2 de Julho de 2001
I. Introdução
Aprecio muito a oportunidade de estar convosco estes três dias durante
o Capítulo. Partilhar convosco os desafios da globalização enriquece-me,
porque aprendo com as vossas próprias experiências, descrições, análises
e reflecções. Há muitos anos que conheço e respeito as RSCM, nos Estados
Unidos, Colombia, Zambia e Zimbabwe. Agradeço-vos por me permitirem
tomar parte na vossa vida, no vosso "rio de vida", neste momento importante.
Começo por dizer que estou aqui com uma dupla preocupação. Primeiro,
porque há mais de doze anos até agora, o local do meu trabalho é África,
o foco do meu coração é Zambia, por isso sinto-me um pouco limitado
do mundo mais alargado que vós aqui representais. E segundo, porque
sou um religioso entre mulheres de uma igreja e de um mundo de hoje
que pede uma maior sensibilidade pelas percepções e sentimentos das
mulheres. Vou avançar durante este tempo convosco com estas preocupações.
II. Reflexão
de Abertura
Para nos situarmos agora, vamos reflectir sobre os 4 pontos seguintes.
-
Ler os Sinais dos Tempos" (Mt 16, 1-3) – Jesus desafia-nos a
abrir os olhos e o coração.
-
A "Contemplação sobre a Incarnação" inaciana – A Trindade olha
o mundo e esta contemplação acende o fogo do amor e envia o Filho
com a missão de dar vida; a Declaração da Missão das RSCM: ""Nós,
Religiosas do Sagrado Coração de Maria, um Instituto apostólico
internacional, somos chamadas a partilhar a missão geradora de vida
de Jesus Cristo".
-
Vaticano II "A Igreja no Mundo Contemporâneo" – Como seguidores
não temos outra opção senão apropriarmo-nos das alegrias e esperanças,
tristezas e ansiedades do povo"
- As pessoas cujas vidas nos tocam profundamente – tragam-nas para
esta sala, para aqui estarem convosco, com os seus nomes e caras explícitas
no vosso espírito e nos vossos corações; vamos dizer alto alguns nomes.
III. Moldura
e Perspectiva
Então, esta manhã vou oferecer-vos uma moldura, uma perspectiva,
uma consideração, um par de óculos, para o trabalho destes dias que
se seguem, à medida que apreendem mais sobre o sentido e desafio da
globalização e depois passar para as suas implicações na vossa missão
hoje. À partida, nada de novo, apenas uma moldura para lá meterem
as vossa próprias experiências e percepções. É bom que tenham hoje
convosco colaboradores vossos, leigos e religiosas, nesta caminhada
cooperativa.
Vamos focar:
-
Algumas notas sobre o "papel profético da vida
religiosa" e a realidade globalizada de hoje
-
Definição de "globalização" e os seus factores integrantes
para situar as vossas próprias descrições
-
Análise e algumas "consequências" da globalização.
-
Algumas respostas que podemos dar à luz da Doutrina
Social da Igreja (DSI).
-
Algumas dimensões da vida religiosa no contexto
da glogalização.
IV. Papel
profético da vida religiosa hoje
-
Prefiro dizer "vida em missão" a "vida consagrada" – é mais activo
tendo em conta as necessidades, respostas e serviços. Nós não
"estamos de fora", mas, com o fim de servir, "estamos no meio".
Encontro esta ideia em Mc 3, 14-15: "E chamou a si os que ele
queria, e eles foram até ele. E escolheu doze, a quem chamou para
que ficassem com ele, para enviá-los a proclamar a mensagem, e
terem autoridade para expulsar os demónios".
Estar com – comunidade; para serem enviados – missão;
partilhar a Boa Nova do Reino de Deus que é activo e afasta a má notícia
do reino do mal.
Ouçam o que dizem sobre isto no Capítulo de 1995: "Num mundo de relacionamentos
destruídos, no qual a dominação, o racismo, a exclusão, a intolerância,
o consumismo, a violência e a manipulação contradizem o exemplo de
Jesus Cristo, cuja vida e missão salvífica somos chamadas a continuar,
somos desafiadas, de um modo novo, a sermos proféticas como Comunidade".
-
Sois "proféticas" continuando a missão de Jesus. Aquele Jesus que
disse: "Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância".
Neste momento, que mais é que eu preciso de dizer, se vós já o dissestes
tão bem!
- Mas, por agora, voltemos a esse "mundo" que contradiz o exemplo
de Jesus e procuremos compreendê-lo mais profundamente, com uma maior
sensibilidade. Foi isso que vocês relataram nestes dias e sobre o
qual refletciram mais profundamente nas vossas respectivas regiões
antes deste Capítulo.
V. Definição
de Globalização e seus factores integrantes
-
Globalização é a palavra que está "na moda" hoje – para conseguir
audiências, organizar seminários, e, sobretudo, obter fundos!
E também para provocar manifestações, tumultos: Seattle, Washington
DC, Praga, Davos, Otava, e talvez Génova! As forças "anti.globalização"
conseguem juntar pessoas de muitos grupos diferentes.
-
Mas há tantas descrições/definições diferentes – é, na verdade
uma "frase global"! Os papeis que me deram mostram que vós a usaram
de uma forma muito rica e variada, sem se restringirem demasiadamente
ao aspecto "económico". Descreveram quer os aspectos positivos
como os negativos com o foco nas experiências de "aumento/diminuição
de vida" tal como vividas nas respectivas províncias e regiões.
-
Vou dar-vos uma definição geral e depois falarei de 4 factores
integrantes, factores que diminuem, estreitam, em tempo,
e em espaço e em relacionamentos, o mundo em que
vivemos hoje, em qualquer parte onde nos encontramos. Enquanto
descrevo cada um destes factores, pensem nas vossas situações
locais, e relembrem o que relataram sobre aquilo que já experimentaram.
-
Quero usar o termo "globalização" para referir o
fenómeno da crescente integração dos Estados Nação através de permutas
económicas, configurações políticas, avanços tecnológicos e influências
culturais.
-
Permutas económicas incluem o comércio de bens e serviços,
movimento de capital e investimentos financeiros; um simples relance
sobre as actividades do nosso dia – acordamos com um despertador
feito na China, refrescamos a cabeça com uma chávena de café produzido
no Kenia, conduzimos um carro feito no Japão e enchemo-lo com
gazolina da Venezuela, etc, etc, - tudo isto demonstra o carácter
totalmente invasivo destas permutas económicas. Mas, ainda antes
do comércio de bens e serviços, de longe a maior componente da
globalização económica é o movimento de capital através das fronteiras
– capital solto, dinheiro manejado institucionalmente, que se
movimenta com a velocidade de um clic do rato de um computador,
colocando dinheiro para um rápido retorno, retirando-o com igual
velocidade para um retorno seguro. Já ouviram, provavelmente,
os números: Hoje, quase dois triliões de dólares americanos circulam
pelo mundo todos os dias, procurando não a melhor produção, mas
o melhor retorno sobre a especulação. Uma das cem entidades maiores
do mundo, metade são estados-nação e metade são corporações transnacionais,
estas últimas não estão interessadas no bem local mas no proveito
global. Os sérios problemas experimentados pelos "Asian tigers"
– que também, como sabem, afectaram o Brasil – deveram-se largamente
ao rápido e descontrolado movimento de capital.
-
Configurações políticas são as estruturas novas ou renovadas
das Nações Unidas, o Banco Mundial, O Fundo Monetário Internacional,
a Organização Mundial do Comércio, os blocos da Comunidade Europeia,
a Área Norte Americana do Mercado Livre, etc. Estes não são governos
democraticamente eleitos, mas têm consideravelmente mais poder
do que qualquer outro desses governos – o poder político para
governar, regulamentar, manejar, dominar, de facto para determinar
o futuro. Por exemplo, o "trade related", o mandato tão expandido
da OMC, actualmente toca áreas como o campo intelectual, a disponibilidade
na medecina, políticas de emprego, regulamentações sobre o ambiente,etc.
O que é que significa o poder político, não simplesmente nas consequências
económicas, das áreas do Mercado Livre, para o México e Brasil
quando ligado aos Estados Unidos? Para Moçambique, Zimbabwe e
Zambia, quando ligado à África do Sul?
-
Avanços técnológicos são, provavelmente, o factor de globalização
mais rapidamente identificado, e um dos quais com que, inicialmente,
nos relacionamos mais positivamente, como se pode verificar nos
vossos relatórios. Incluem a utilização rapidamente crescente
das comunicações electrónicas (e-mail e internet)e a crescente
facilidade de transporte. Sabemos que todas as que estamos na
sala do Capítulo chegaram aqui de maneira bem diferente daquela
que poderíamos ter chegado a qualquer Capítulo há cinquenta anos
atrás! Vivemos numa época da informação, numa "época sem fronteiras",
numa época muito rápida. A notável resposta à página da Web RSCM
em todo o mundo é apenas uma demonstração óbvia desse facto! O
que devemos ter em consideração é que os avanços tecnológicos
em si mesmos, são sempre os caminhos e, frequentemente,
os condutores de outros factores que vimos na globalização.
-
As influências culturais são os poderes
modeladores que afectam a maneira de vivermos juntos, de vestir,
comer, divertir, cantar e dançar, expressar os modos de vida mais
profundos, a maneira de rezar. "Cultura" é o cimento precioso que
mantem a sociedade unida. Mas conduzida por factores económicos,
leva a uma ocidentalização poderosa da cultura popular no mundo
de hoje, tais como: a música, vestuário, estilo de vida, etc. Hoje
a maior indústria de exportação dos Estados Unidos não é a de aviões,
automóveis, computadores, mas está ligada à indústria do entertenimento
– filmes de Hollywood e programas de televisão. Um comentador contemporâneo
do processo de globalização falou do nascimento do "McWorld"( Mundo
Mc) – uma integração cultural da música rápida (MTV), dos computadores
rápidos (Macintosh) e de comida rápida (Mcdonald's). Um imperialismo
cultural não é um fenómeno novo, mas assume proporções alarmantes
quando conduzido pelas novas tecnologias e pelos lucros que caracterizam
a dinâmica da globalização. Testemunhamos o predomínio da geocultura
sobre a geopolítica e a geoeconomia, como referiu
um amigo meu, Jesuíta da Nicarágua. Os valores da cultura tradicional
em África e na América Latina, tais como: família, comunidade, respeito
pela vida, hospitalidade, etc confrontam-se fortemente e perdem
a batalha face aos valores poderosos comunicados pelo mundo ocidental
da música, filmes, vídeos, televisão por cabo e via satélite, anúncios
e ídolos do cinema e desportos.
Hoje, existem mais alguns factores (estruturas) importantes de globalização.
De novo, a definição é: o fenómeno da crescente integração dos
Estados nação através de permutas económicas, configurações políticas,
avanços tecnológicos e influências culturais.
VI. Algumas
"consequências " da globalização
Há muitas consequências, algumas boas, outras más, mas vamos falar
apenas de três das mais perigosas e ver o seu significado no mundo
onde estamos em missão, para partilhar a Boa Nova de Jesus sobre a
vida.
-
A ideologia dominante: A globalização como actualmente
se experimenta, é, na sua principal direcção, uma incarnação do
neo-liberalismo. Levada ao extremo, esta ideologia é uma espécie
de "fundamentalismo económico", que atribui um valor absoluto
às operações de mercado e subordina a vida das pessoas, a função
da sociedade, as políticas de governo e o papel do estado a este
mercado livre descontrolado. As políticas neo-liberais apoiam
o crescimento económico como um fim em si mesmo e utilizam os
indicadores macro-económicos como os principais indicativos duma
sociedade rica. Quase que assume um carácter religioso, já que
cresce como virtude, a competição um mandamento, e o lucro um
sinal de salvação. Os dissidentes são excluídos como não-crentes,
na melhor das hipóteses, e como hereges, na pior. Os problemas
com a operação desta ideologia – mesmo aqueles problemas em massa
como os colapsos que houve na Ásia há alguns anos atrás – são
considerados não como "pecados mortais" mas como meras "perdas
da graça" que merecem maior penitência que os exercícios que são
exigidos pela ideologia.
Se não pensam que a minha visão é a de algum Jesuíta de esquerda,
deixem-me citar outro comentador, alguém que se preocupa com
a globalização porque ela tornou-se rapidamente um fenómeno
cultural:
"O mercado, como um mecanismo de troca, tornou-se o mediador
de uma nova cultura. Muitos observadores têm referido o carácter
intruso e mesmo abusivo, da lógica de mercado, que reduz, cada
vez mais, a área disponível à comunidade humana para o voluntariado
e acções públicas em todos os níveis. O mercado impõe a sua
maneira de pensar e de agir, e impõe a sua escala de valores
sobre o comportamento. Aqueles que lhe estão sujeitos, vêm muitas
vezes a globalização como uma torrente destruídora das normas
sociais que os tinham protegido e dos pontos de referência culturais
que tinham dado direcção à sua vida".
(Papa João Paulo II, em 27 de Abril de 2001, à Academia Pontifícia
de Ciências Sociais, conferência sobre "Globalização na Humanidade
comum: Preocupações éticas e institucionais")
O domínio desta ideologia de mercado explica, creio eu, a relutância
das maiores Instituições Financeiras Internacionais e dos países
crédores em reconhecer a necessidade do cancelamento imediato
e completo da dívida aos países pobres. Mais tarde poderemos voltar
a falar deste assunto do cancelamento da dívida.
-
Ruptura económica: Uma coisa que muitas de vós referiram
nas vossas próprias reflexões é a ruptura crescente entre os países
ricos do norte e os países ricos do sul, e também em alguns países,
individualmente. Claro que eu vou dar uma atenção particular a África.
A prosperidade económica trazida pela industrialização, as inovações
tecnológicas, o comércio, o investimento, etc, não foi realmente
experimentado em África. Vou apresentar-vos algumas observações
empíricas para demonstrar este facto, e depois dizer mais alguma
coisa sobre o resto do chamado "mundo em desenvolvimento"
Dos 64 países classificados como "de baixo rendimento" pelo relatório
do Banco Mundial 2000, 38 são de África. Esta classificação é
feita com base nos cálculos económicos rigorosos do PIB (Produto
Interno Bruto) per capita. Dos 35 países classificados como de
"desenvolvimento humano baixo" pelo relatório do Programa de Desenvolvimento
das Nações Unidas, 2000, 27 estão em África. Esta classificação
é feita tendo em conta os cálculos sociais tais como: expectativa
de vida e grau de instrução, como reveladores do lado humano do
desenvolvimento.
Que esta situação de ruptura tem realmente piorado na
era da globalização vê-se pelo facto que a média anual de crescimento
do PIB per capita entre 1990 e 1998 em 43 estados da África do
Saará tem crescido
Talvez estejam familiarizadas com a expressão "economia da taça
de champagne", uma imagem do universo saída recentemente dos Relatórios
sobre o Desenvolvimento Humano (UNDP,) que documenta que 20%
da população mais rica do mundo recebe 86% da receita global,
enquanto os 20% da mais pobre recebe apenas 1%. Esta é uma imagem
do globo, em que a grande maioria ocupa apenas a parte mais estreita
da taça, enquanto a pequenina maioria dos ricos goza a parte larga
da riqueza. Nesta taça de champagne, todos sabemos onde está a
maioria dos Africanos!
Talvez tenham já ouvido estes números, mas vamos ouvi-los de
novo:
-
a riqueza das 3 pessoas mais ricas do mundo
é maior do que todo o PIB de todas as nações menos desenvolvidas
do mundo;
-
a riqueza das 200 pessoas mais ricas é maior
do que toda a receita junta de 41% das pessoas do mundo;
-
a contribuição anual de 1% da riqueza das 200 pessoas mais
ricas do mundo chegava para pagar o acesso à educação primária
de toda a gente do mundo inteiro.
A actual estruturação da globalização cria também uma marginalização
crescente dos países pobresno mesmo processo da sua integração
na economia mundial. Porque há uma forte disparidade entre ricos
e pobres nas oportunidades globais oferecidas no comércio, investimento
e tecnologias. Estes são números oficiais das UN:
-
Comércio: das acções da exportação mundial
do mercado de bens e serviços, 82% vão para os 20% das pessoas
que vivem nos países de maior receita, os outros 20% vão para
apenas 1%
-
Investimentos: das acções em investimento
directo estrangeiro, 68% vão para os 20% mais ricos, apenas
1% vai para os 20% mais pobres
-
Tecnologia: tomemos como exemplo as acções dos utilizadores
da internet, 93,3% vão para os mais ricos, 0,2% para os mais
pobres.
No Sábado, a Veronica Brand deu-vos a mesma apresentação gráfica
da disparidade da economia global e do poder de compra em países
onde as irmãs trabalham. Algumas podem estar optimistas e acreditar
que, em breve, esta situação vai dar uma reviravolta. Neste momento
não estou assim tão optimista. duvido que esta marginalização
que tem crescido dramaticamente nos anos mais recentes, dê sinais
de diminuir no futuro imediato, dada a operação corrente das forças
mundiais da globalização. Como o Relatório sobre o Desenvolvimento
Humano 1999 da UNDP comentou:
Alguns têm previsto uma convergência (entre ricos e pobres).
Porém, a década anterior (a década de mais forte globalização)
tem mostrado uma concentração crecente de receita, recursos e
riqueza entre pessoas, corporações e países…todas estas tendências
não são consequências inevitáveis da integração económica global
– mas avançam sem ter em conta os governos na sua globalidade,
para partilhar os benefícios.
-
Ameaça ambiental crescente: Podiamos agora falar de muitas
dimensões sobre o ambiente e como a ameaça da globalização não é
apenas algo estrictamente sentido nos países pobres do hemisfério
sul. Vocês sabem, e comentaram nos vossos relatórios de preparação,
como a globalização afecta o ambiente quer dos países ricos quer
dos pobres. Vou apenas escolher um aspecto particular da globalização
e do ambiente, o fenómeno do aquecimento global. Este fenómeno
é essencialmente provocado pela emissão do dióxido de carbono dos
automóveis, espaços de fornecimento de energia e indústrias que
estão mais concentrados nos chamados países desenvolvidos. Recentemente
li um relatório emanado há alguns meses pelo Programa de Ambiente
das Nações Unidas, baseado em Nairobi. Falava, em termos aterradores,
do impacto em África do aquecimento global, provocando aumento de
doenças, fome e pobreza. Com o foco imediato sobre HIV/SIDA, este
relatório oferece um outro alerta sensato: Por exemplo:
Monções, chuvas e temperaturas elevadas favorecem o aumento
de doenças – aparecimento de mosquitos, permitindo-os voar a
uma maior altitude. As temperatura elevadas, fortes chuvas e
mudanças de clima originam um aumento de insectos que multiplicam
as doenças infecciosas. O relatório refere que os casos de malária
nas zonas altas de Rwanda aumentaram em 337% nos últimos anos
sendo 80% deste aumento devido às mudanças de temperatura e
chuvas que dão origem ao desenvolvimento de mosquitos que provocam
a malária. Uma razão semelhante foi apresentada em relação ao
Zimbabwe… A cólera que é transmitida pela água ou pelos alimentos
podem agravar os problemas de saúde em muitas partes do mundo,
incluindo África. Os cientistas dizem que, durante os anos de
1997-98, as chuvas torrenciais de El Nino causaram epedemia
de cólera em Djibouti, Somália, Kénia, Tanzânia e Moçambique
( e eu podia acrescentar Zâmbia!)
É evidente que El Nino, um grande fenómeno climatérico natural
que pode originar fortes chuvas e secas em muitas partes do
globo, está a tornar-se mais frequente como resultado do aquecimento
global.
O relatório continua com mais dados e análises de distúrbios.
Podiam dizer-me que estes maus efeitos se devem atribuir à natureza
e não aos seres humanos. Mas é bom lembramo-nos que o aquecimento
global está, na verdade, ligado à globalização das forças económicas
que se desenvolvem sem qualquer preocupação ecológica e das forças
políticas que apoiam os modelos económicos. Tivémos provas mais
que evidentes nestes últimos meses, com a rejeição clara do Presidente
dos EUA, George Bush, dos acordos de Kyoto, para limitar as emissões
prejudiciais.
Estas são algumas das consequências negativas da
globalização que eu mencionaria com "diminuidoras de vida" – uma
imagem não particularmente agradável. Certamente que há lados positivos,
mas estes não são, na minha opinião – como resultado das minhas
pesquisas e da experiência que tenho vivido na Zâmbia – a imagem
preponderante.
VII. Algumas
respostas à Globalização
Nesta altura da manhã, algumas de vós devem querer gritar bem alto
e claramente: "pare lá com essa globalização, queromos ver-nos livres
disso!" Por isso deixem que vos diga o que podemos fazer se queremos
permanecer neste globo, em união com "as alegrias e esperanças, as
tristezas e expectativas" das nossa irmãs e irmãos que vivem em todo
este globo.
Há algumas alternativas a esta corrente, alguma resposta
a que vós, como congregação internacional, possam ser sensíveis? Creio
que há, e vou sugerir, em termos amplos, alguns pontos que encontro
na Doutrina Social da Igreja (DSI). A DSI é aquele ensinamento baseado
na Escritura, nos escritos de teólogos, antigos e contemporaneos,
nas declarações dos papas, concílios, sínodos, cartas pastorais regionais
e nacionais, e na vida de pessoas boas em todo o mundo.Creio que esta
doutrina social oferece uma visão e sugere estruturas que podem criar
alternativas àquilo que hoje estamos a viver.
Vou dizer uma palavra sobre alternativas. A frase "TANA" – ‘não
há alternativas!'(There Are No Alternatives) é atribuída a
Margaret Tatcher ( ela estava a falar das achegas ao mercado livre.)
Mas eu, e milhões, provavelmente biliões, prefiro a frase: "TAMA"
– ‘Há muitas alternativas!'(There Are Many Alternatives!)
Temos que aceitar que esta globalização é "inevitável"? Para responder
a esta pergunta, é necessário e ajuda fazer uma distinção analítica
entre:
-
Forças objectivas que conduzem a globalização, tais como,
os factores da produção tecnológica e as comunicações electrónicas,
que, entregues a si próprias, iriam concentrar nas mãos dos já
poderosos, alguns benefícios da globalização.
-
Escolhas subjectivas que dão forma à globalização,
tais como, as políticas que contribuem para a dirigir, por exemplo,
regulamentação, impostos, estruturas governamentais de responsabilidade
e participação, etc., que podem ser modificadas, a fim de espalhar
os benefícios da globalização.
Para influenciar as escolhas subjectivas, e, assim dirigir as forças
objectivas, creio que é necessário seguir um caminho tri-partido (sugerido
noutro contexto por um especialista em DSI nos EUA, J. Brian Hehir)
que inclui:
-
Trabalhar com a globalização
-
Trabalhar contra a globalização
-
Trabalhar para a globalização
-
Trabalhar com a globalização implica trabalhar com as
forças objectivas que podem realmente beneficiar a humanidade.
Neste preciso momento, estamos a fazer isso mesmo, utilisando
a internet para que a vossa página da web e os e-mail vos mantenham
em contacto umas com as outras. Creio que no melhor, as Nações
Unidas são uma força global com quem se pode trabalhar para uma
melhor situação global, sobretudo se for reformada para dar uma
voz mais forte à maioria da população global. É essa a razão que
me leva a sentir encorajado ao ver muitas congregações religiosas
a trabalhar com as UN em diferentes forums.
-
Trabalhar contra a globalização é fazer uma análise crítica,
necessária para expor as suas consequências anti-desenvolvimento
e lutar para confrontar os actores – pessoais, políticos e corporativos
– que promovem essas consequências. Têm sido muito publicitadas,
nestes últimos meses, as manifestações ocorridas em Seattle, Washington
DC, Praga. Davos, Otava e noutras partes, pelas forças anti-globalização.
Conheço muitos dos que estiveram envolvidos nessas manifestações
e, o lado mais importante, o lado mais forte do seu confronto não
tem sido uma violência esporádica, mas uma análise consistente.
O encontro do G-8 em Génova no final deste mês, vai ver uma grande
concentração de pessoas "anti-globalização" – não se distraiam pela
forma como os meios de comunicação vão dar relevo à violência –
dêem atenção à análise e às manifestações pacíficas e de oração.
-
Trabalhar para a globalização é oferecer
alternativas, estratégias e tácticas que possam modelar o futuro.
Isto afecta todos os lugares onde as RSCM vivem e servem, na Europa,
na América do Norte, na América Latina, em África. Para mim, há
alguns elementos na DSI que oferecem a visão e sugerem as estruturas
que nos podem ajudar no nosso planejamento, para darmos resposta
e nos comprometermos na acção. (Presumo, claro, que a acção é a
conclusão desejada que sairá do vosso Capítulo, e que sigam a versão
clássica do "ver-julgar-agir" e não a versão burocrática do "ver-julgar-arquivar!").
Ao apresentar alternativas, permitam-me que sugira um breve conjunto
de três variedades de globalização que dão corpo tanto à visão como
às estruturas que são necessárias hoje.
-
Globalização de solidariedade: Isto é uma anti-ênfase,
na verdade uma ênfase anti-cultural, para as estruturas que conduzem
hoje a globalização. Do que ouvi, é uma visão que dirige a vossa
congregação à medida que examinam a vossa missão de hoje. Esta
ênfase encontra-se resumida por João Paulo II na sua Mensagem
para o Dia Mundial da Paz em 1998, quando chama "uma globalização
em solidariedade, uma globalização sem marginalização" Solidariedade
pode também ser expressa através de um provérbio africano, "eu
existo porque nós existimos; nós existimos porque eu existo".
O meu valor, existência e identidade pessoais existem só na comunidade;
e a ordem, função e beleza da comunidade só é possível com o meu
contributo pessoal.
Solidariedade significa mais do que estruturas, acções e programas;
é uma virtude, um apelo à conversão e reforma, uma consciência
e atenção que ousa fazer aquilo que se pensava impossível fazer!
É uma expressão contemporanea para o compromisso com o bem
comum. É uma resposta ao reconhecimento de que o desenvolvimento
não é apenas da pessoa toda, mas também da pessoa toda em toda
a comunidade, da comunidade global total. É uma visão que contem
os valores baseados na dignidade fundamental da pessoa humana.
-
Globalização de preocupação: esta é simplesmente o valor
que enfatiza a prioridade das pessoas sobre o lucro, trabalho
sobre o capital e cooperação sobre competição. É uma expressão
central na DSI contemporânea, a opção preferencial pelos pobres.
Vocês apresentaram esta ênfase nos debates sobre o desenvolvimento
e partilha dos recursos humanos e financeiros na congregação das
RSCM. Isto obriga-vos a perguntar se em cada decisão que tomam,
por exemplo, durante este Capítulo, está a pergunta básica: "O
que é que isto pode significar para os pobres?" Não é apenas a
pergunta, pode ser a primeira pergunta, mas é uma pergunta essencial.
E ao dar-lhe resposta, não há um balançar entre um grupo de pobres
contra outro grupo – uma sensibilidade que constrata entre os
pobres dos bairros da Europa ou da América do Norte e dos pobres
da América Latina ou África. Temos de chegar a saber fazer a distinção
analítica entre "os pobre" e "os empobrecidos" – os pobres são
sujeitos de mudança , os empobrecidos são objecto
de opressão. Onde quer que haja pobres, há estruturas – económicas,
políticas, sociais, culturais, religiosas, de sexo, etc, - que
são opressivas. Assim, para termos uma visão da globalização de
preocupação implica que trabalhemos nas estruturas que vão contra
o empobrecimento das pessoas, quaisquer que elas sejam, onde quer
que vivam.
-
Globalização a partir de baixo: Esta feliz viragem da
frase foca a nossa atenção no facto de que o desenvolvimento humano
integral, um desenvolvimento humano duradouro, depende mais dos
relacionamentos humanos harmoniosos a nível local que da organização
e acção das estruturas políticas internacionais ou nacionais sem
responsabilidade e do mercado livre desenfreado. A falha fundamental
na globalização, que acontece actualmente, é que ela não está
enraizada a partir de baixo, na comunidade, mas é estruturada
a partir de cima, de acordo com leis económicas abstractas. Para
fazer face a esta situação de forma criativa é necessário a implementação
do que a DSI chama subsidariedade. Isto é a construção
das estruturas necessárias ao desenvolvimento, aos níveis locais,
com a participação das pessoas.
Essa estrutura, muito importante sobretudo em países
pobres, é, obviamente, um forte governo nacional. A DSI certamente
que não apoia o apelo do neo-liberalismo para que o estado se demita
dos seus deveres de promover o bem comum. Outra estrutura importante
é uma sociedade civil viva, a rede de organizações não governamentais
(ONGs), organizações baseadas na comunidade, grupos de auto-ajuda,
etc. O movimento das mulheres para a defesa dos direitos humanos,
preocupações ambientais – todos têm fortes redes internacionais
de grupos locais. Duas campanhas recentes (e têm especial relevância
para nós, em África) são bons exemplos de globalização vinda de
baixo: a campanha contra as minas anti-pessoais e a campanha do
Jubileu 2000 para o cancelamento da dívida. Outro esforço importante,
em que as irmãs do SCM têm estado envolvidas, é a campanha contra
o tráfego de mulheres.
VIII. Dimensões
da vida religiosa num contexto de globalização
São as minhas notas finais – que podiam realmente ser, deviam ser,
um outro workshop! Mas, embora de forma breve, podem dar-vos algus
elementos de reflexão agora que avançam para o planejamento das deliberações
do vosso Capítulo.
Repito o que já disse no início, que ofereço as minhas notas, agora
referindo-me essencialmente à vida religiosa, com um cuidado humilde.
Como um religioso formado nos EUA e agora a trabalhar em África, como
Jesuíta, não pretendo oferecer-vos, a vós, religiosas de todo o mundo,
com experiência e cheias de dedicação, alguma coisa particularmente
nova ou imperativa. Simplesmente quero partilhar a percepção que me
vem da minha própria experiência.
-
Votos: podemos considerar, segundo duas perspectivas,
os votos religiosos tradicionais que vocês e eu publicamente professámos,
e convidamos jovens a juntarem-se a nós, a professá-los e a vivê-los.
Uma perspectiva é ascética – os votos são regras a que nos sujeitamos
por amor a Deus, para nos ajudarem a viver numa união mais íntima
com Ele, através de uma entrega, de uma renúncia de alguns desejos
humanos básicos, momeadamente, amar intimamente e produtivamente,
fazer as nossas próprias escolhas e dispor da nossa vida e do
nosso tempo, e possuir recursos que nos libertem de uma dependência.
Esta perspectiva ascética da castidade, obediência e pobreza fez,
e continua a fazer santos, daqueles que são pessoas vulgares.
É uma graça para todos nós. (Este assunto encontra uma relevância
especial em debates sobre "vida consagrada").
Mas eu acredito que há outra perspectiva, sempre relevante, mas
hoje duma maneira especial. É a perspectiva apostólica, que olha
a vida consagrada ao serviço da humanidade, uma humanidade carenciada
de testemunhos de anti-culturais (contra-culturais). Contra
uma sexualidade egoísta que é frequentemente exploradora das mulheres,
precisamos do testemunho de um amor generoso que é verdadeiramente
gerador de vida de forma não exclusiva. Contra a exigência de
um contrôle individualista sobre o destino de alguém que é frequentemente
dominador de outros, precisamos do testemunho de cooperação para
o bem comum com um contributo gratuito de talentos e de tempo
para algo maior do que eu própria. Contra o desinteresse pela
comunidade da criação à qual pertencemos, como pela comunidade
da humanidade, precisamos do testemunho de um estilo de vida de
partilha, atenção e de poupança (generosa, protectiva e simples).
Os votos da vida religiosa, vividos autenticamente e com ousadia,
podem ser testemunhos "contra-cultura." É evidente que os religiosos
não são os únicos a dar este testemunho. Mas à luz da globalização
hoje, devemos perguntar-nos se realmente vivemos os votos numa
dimensão apostólica que contribua para a construção do tipo de
globalização que sabemos ser a necessária.
-
Comunidade: No contexto da globalização, a comunidade assume
novas concepções de inclusão, interligação, extensão para os outros.
A vossa realidade local pode apenas existir e desenvolver-se numa
realidade mais alargada – a experiência cognitiva e emotiva
de um Capítulo torna essa verdade tão óbvia! Enquanto consideram
assuntos tais como a formação, a família alargada (co-membros ou
associadas ou qualquer outra coisa), compreendem que o mundo é muito
diferente, a Igreja é muito diferente do tempo da vossa fundação.
Por isso, como podem ser diferentes como comunidade, nesta era de
globalização, e continuarem fiéis ao vosso carisma?
-
Oração: Sim, creio que a oração tem uma
dimensão nova na era da globalização. Viver em África tem-me ensinado
a espontaneidade da oração que brota dum ambiente naturalmente religioso.
E também estimulou a minha tradicional ênfase inaciana e jesuítica
sobre a "contemplação para a acção" ou "encontrar Deus em todas
as coisas". Deixem-me recordar o que disse na Liturgia e na nossa
reflexão de abertura esta manhã: somos todos convidados a procurar
e a encontrar o Senhor – a ouvi-lO, vê-lO e tocá-lO (1Jo 1,1) –
nas pessoas à nossa volta, sobretudo os mais necessitados. E um
olhar firme e claro para os "sinais dos tempos" nesta era de globalização
– como o fizeram na preparação para este Capítulo – certamente revela
a maneira como fostes chamadas hoje a estar com outros "para que
todos tenham vida". A vossa missão de RSCM continuará, depois. Convidava-vos
a voltar atrás àquela cena da Contemplação da Incarnação. Experimentem
com um olhar amoroso tendo o universo à vossa frente. E experimentem
de novo a vossa missão "ut vitam habeant" – Que todos tenham vida!
Isto pode tornar a vossa vida religiosa significativa, o vosso Capítulo
excitante, a vossa missão relevante, o vosso serviço gerador de
vida!
Obrigado e que Deus vos abençoe!
Peter Henriot, S.J.
Jesuit Center for Thelogical Reflection
P.O. Box 37774
10101 Lusaka, Zambia
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