27 de Junho, Palavras de Abertura
Catherine Dolan, RSCM

Depois deste ritual e liturgia da Palavra tão inspiradores, reunimo-nos agora, tendo sido formalmente chamadas para este Capítulo Geral. Como anteriormente mencionei, espero que tenhamos deixado para trás toda a bagagem de que não precisamos neste momento. Precisamos, sim, é de termos um espírito e coração de Instituto que nos permitam ter olhos de Instituto para vermos e ouvidos de Instituto para ouvirmos o que Deus nos pede para fazermos neste momento. Vimos para aqui da nossa província ou região, trazendo o amor e apoio das nossas irmãs e a sua confiança de que serviremos o bem comum do Instituto e a sua preciosa herança, a missão que nos foi confiada pelo nosso fundador, itmã fundoras e todas as que já partiram antes de nós.

Ao longo deste ano, como Instituto, temos estado em contacto com o logo do Capítulo, o nosso tema e foco. Foram-nos lembrados através de frequentes comunicações, de orações belas e significativas que as províncias e regiões partilharam connosco cada mês, assim como pela oração do capítulo. Estão muito presentes na nossa consciência agora através da liturgia em que acabámos de participar. Obrigada, Cathy, pela sua preparação.

Gostaria de reflectir um pouco sobre o tema: Reaviva a Chama do Dom de Deus. Possivelmente cada uma de nós foi diferentemente tocada por esta frase, de acordo com as nossas próprias situações e caminhada. Para mim, o tema em si mesmo reavivou em chama o dom da gratidão pelos muitos dons que recebi cada dia - talvez todas possamos indicar dons que foram reavivados em chama durante este último ano e partilhá-los nalgum momento durante o capítulo. Contudo, neste momento, gostaria de nos lembrar dos dons comuns que temos para o capítulo.

Primeiro que tudo, reavivar a chama do dom de Deus, o dom do próprio Deus. Deus é dom para nós e para toda a humanidade. Deus é dom para nós neste capítulo. Será possível para nós reavivar a chama deste dom? Penso que já o fizemos invocando a presença do Espírito Santo no meio de nós como chama e fogo, pedindo ao Espírito para ficar connosco com a sua divina luz. Podemos também reavivar em chama, e partilhar umas com as outras, o dom da gratidão, e a fé na presença de Deus, da convicção de que Deus é o Deus da novidade, da confiança que a presença de Deus está activa, e o da paz porque sabemos que com Deus tudo correrá bem. Precisamos destes dons para nos ajudarem durante o capítulo, uma vez que a nossa missão, como Gailhac muitas vezes nos lembrou está centrada em Cristo, no nosso Deus cuja presença entre nós é fogo, com a sua dança, as suas chamas multi-cores, inspirando sonhos, visões, entusiasmo e dando vida e luz e energia. Deus está connosco neste lugar neste momento e é aqui que encontraremos Deus, pessoalmente e como capítulo.

Outro dom que temos neste momento é a presença real de cada pessoa aqui, qualquer que seja o seu papel neste capítulo. Isto é um lugar, uma oportunidade para encontrar, partilhar, ouvir em comunidade a voz do Espírito.Cada uma de nós traz os seus próprios dons mas a pessoa em si e a presença de cada uma de nós é dom umas para as outras e para o capítulo, e esperamos poder reavivar a chama desta presença em paixão e energia que nos vão atear como Instituto para respondermos ao que Deus nos está a chamar neste momento. E, claro, para sabermos aquilo que Deus nos está a pedir, precisamos do dom do discernimento, individual e comunitário, e desejamos que esta atitude prevaleça durante todo o capítulo, não só no momento das eleições, mas em tudo o que fazemos. Precisamos de ser capazes de distinguir que centelha, vinda da chama que dança do Espírito de Deus, precisamos de agarrar e reavivar neste momento.

Um dom que gostaria de sublinhar é a visão de Gailhac cujo fogo queremos impulsionar nos nossos corações. Que dom é esta visão para nós, e esta visão para os nossos dias é do que trata o nosso capítulo! A finalidade de um capítulo geral é “reflectir sobre a nossa vida e missão na Igreja e tomar decisões em vista de uma maior fidelidade à nossa vocação apostólica”. E o direito canónico declara que esta reflexão inclui o dever de proteger o legado sagrado do Instituto: “tudo o que o fundador entendia a respeito da natureza, finalidade, espírito e tradições comuns”, tendo em consideração a mudança permanente dentro do Instituto, da Igreja, da cultura e do mundo.

Na reunião do CGA de 2006, cujo principal objectivo foi a preparação para este capítulo geral, falei sobre a visão de Gailhac. Queria repetir um pouco do que disse nessa ocasião acerca das características da visão de Gailhac que deverão animar a nossa missão presente e futura.

Primeiro que tudo, para Gailhac a missão era o principal, e era a missão enraízada na centralidade de Jesus nas vidas das irmãs. Ele reconheceu muito claramente a necessidade absoluta da contemplação para a acção ser efectiva. Esta acção, viu-a em relação às necessidades reais às quais dar resposta no contexto social, económico e político do tempo; necessidades de pessoas concretas, e situações que clamavam por “vida” mulheres na prostituição, jovens em risco, crianças orfãs, meninas - ricas e pobres – com necessidade de educação. Estava determinado a encontrar maneiras de responder a estas necessidades e a sua posição profética causou-lhe oposição e mesmo perseguição. Ele também teve imaginação. Por exemplo, Gailhac imaginou como as mulheres na prostituição poderiam ter vidas diferentes, e actuou para tornar isso uma realidade.

Gailhac teve também um sonho que o Instituto com a sua missão e carisma particulares se expanderia por todo o mundo. Ele e as primeiras irmãs devem ter tido paixão, imaginação e esperança , pois dentro de trinta anos de fundação, as RSCM estavam presentes em 4 novos países e um novo continente, transcendo fronteiras de toda a espécie, relacionadas com idade, geografia, escassez de recursos, preconceitos, falta de experiência, medo, ignorância e provavelmente muitas mais.

Parece claro que Gailhac queria que as Religiosas do Sagrado Coração de Maria fossem mulheres enraízadas em Deus e apaixonadamente comprometidas com a Missão num mundo de muitas necessidades, com a capacidade de se moverem livremente para além fronteiras, arriscarem e abraçarem novas situações por causa da missão. Esta é a visão do nosso fundador para as RSCM, o seu sonho. Esta é a que ele quereria para este corpo capitular.

O logo, trabalho da Ir. Isabel Grangeon, ilustra muito bem o tema com a conjunção das chamas, o mundo e a nossa cruz. A chama mantém unido o nosso Instituto, representado pela nossa cruz, e o mundo. Recorda-me as palavras da Sabedoria: O Espírito do Senhor enche todo o universo, dá consistência a todas as coisas, não ignora nenhum som. (Sb 1, 7) E lembra-nos que a cruz está sempre presente connosco, é o preço de sermos discípulas.

Tudo o que vale tem o seu preço. A obra de Gailhac em Béziers teve o seu preço, como sabemos pela perseguição de que foi alvo. Deve ter custado imenso a Gailhac enviar as suas filhas por mar para a Irlanda e Inglaterra e atravessar oceano para os Estados Unidos, não só por aquilo que estas jovens mulheres deveriam enfrentar, mas também por ver reduzir o número de irmãs noutras comunidades onde as necessidades eram grandes. Por isso, sermos impulsionadas pela visão de Gailhac e actuar de acordo com a sua visão terá o seu preço. A cruz nunca está longe. Esta foi a experiência de Gailhac e das primeiras irmãs e assim tem continuado através da nossa história. Acreditamos que a cruz é fonte de vida nova pelo simples facto de que, porque as nossas irmãs assumiram o custo de transcender fronteiras, estamos todas aqui hoje, de muitos países, muitas culturas diferentes. Se elas nunca tivessem deixado Béziers, onde estaríamos nós agora? Ao arriscar transpor fronteiras os nossos antepassados escolheram vida e causaram transformação no Instituto e no mundo.

Este capítulo geral é chamado a realizar a transformação no nosso mundo neste momento com as suas necessidades particulares. Quando olhamos para os capítulos que precederam este, podemos, de uma certa perspectiva, ver um movimento circular. Gailhac esteve presente no primeiro capítulo de 1876 e aí o foco foi a unidade na congregação por causa da missão. A unidade era parte integrante da visão de Gailhac e sabemos como ele estava preparado para tudo suportar para preservar esta unidade, pois já nos seus oitenta ele viajaria todos os anos para Bootle para dar um retiro às irmãs aí reunidas das comunidades de Ferrybank, Lisburn, Bootle e uma ou duas de Sag Harbor. Gailhac via nisso uma grande fonte de unidade.

Durante muitos capítulos depois desse primeiro, sem Gailhac, a ideia da unidade degenerou em uniformidade e os capítulos preocuparam-se com o estabelecimento de regras que assegurassem esta uniformidade. A confusão entre uniformidade e unidade durou basicamente até aos nossos capítulos nos anos sessenta. O capítulo de 1968/69 teve duas sessões, a primeira caracterizada por extremo sofrimento pois, apesar da uniformidade de costumes no Instituto, as delegadas de diferentes províncias, e de diferentes posições culturais e teológicas falaram umas às outras, pela primeira vez, das suas diferenças. Grandes fronteiras tiveram de ser ultrapassadas. Contudo, no final da segunda sessão, foi escrita uma notável Carta Aberta do Capítulo ao Instituto “um sinal magnífico de unidade emergiu de décadas de uniformidade” (Kathleeen Connell – comentário sobre os capítulos das RSCM).

Todos os nossos capítulos desde então, chamaram-nos a responder, primeiro que tudo, ao apelo à justiça, e também ao da unidade, através da identificação da nossa missão comum e foco sobre a justiça, expressando a nossa unidade como Instituto, continuando os nossos esforços para sermos um corpo para a missão, usando a nossa internacionalidade para a realização da nossa missão. Como Instituto, fomos chamadas de novo à unidade, e assumimo-la, a unidade de que Gailhac tanto insistiu durante a sua vida e no primeiro capítulo geral.

Este capitulo deverá dar vida à visão e carisma fundadores de Gailhac, torná-los autênticos neste tempo particular. A razão pela qual sublinhei o aspecto da unidade do nosso Instituto é porque acredito que temos um dom de que o mundo necessita. Particularmente, desde 11 de Setembro 2001, uma das verdadeiras necessidades a que é preciso dar resposta no contexto social, económico e político do nosso tempo, é o da unidade. Actualmente, todos estes contextos – social, económico, político e religioso estão profundamente fracturados e fragmentados, levando a grandes injustiças, divisões, conflitos, guerras, de que todas temos consciência. Desde meados dos anos noventa todos os nossos capítulos têm-se confrontado com as necessidades do nosso mundo e definiram direcções para encontrar maneiras de trabalhar com outros para a mudança. Hoje, sem estar consciente disso, este mundo clama por unidade, a unidade pela qual Cristo rezou e que, acredito, é o sonho de Deus para a humanidade. O meu próprio sonho é que este capítulo tenha a possibilidade, através do discernimento conjunto, identificar as fronteiras desta unidade que, como Instituto, podemos transcender e a imaginação, inspiração e criatividade para encontrar maneiras de a realizarmos. E como Gailhac, todas temos este poder para imaginar. Como diz uma canção moderna: “ No mais profundo de cada coração, existe uma centelha que acende o fogo da nossa imaginação.” (“The Power of the Dream”)

É a nossa vez de escolhermos. Vamos agarrar o fogo da visão de Gailhac para os nossos dias, qualquer que seja o seu preço? Vai a nossa presença aqui como capítulo efectuar a transformação no nosso mundo actual e nos anos futuros? Acredito e espero que assim seja, se permitirmos que a centelha dos nossos corações se incendeie com o fogo da visão de Gailhac, e se mantivermos diante de nós a convicção de que “o Espírito do Senhor enche todo o universo” e nos torna capazes, como Maria, de “dizer sim a Deus sem condições”. (Const.3)


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